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domingo, 16 de novembro de 2014

O placa

 

Sua função era não ser notado. Era menos importante do que a placa que vestia,  como um cavalete. "Lan House no segundo andar" – a mensagem não podia ser mais simples. Só tinha entrado na tal "lan house" uma vez,  para entrevista. Todo dia pegava e guardava seu instrumento de trabalho/uniforme num almoxarifado da própria galeria que ficava plantado na porta.

 

"Esse é um trabalho importante" eles disseram. "Você será a empresa lá fora,  o chamariz. Esse ramo de publicidade humana está crescendo muito. Se fizer um bom trabalho como placa aqui,  quem sabe um dia você possa chegar a outdoor.” Sentiu-se imbuído de uma importante tarefa. Abrir mão das vaidades individuais para promover a empresa. O importante era esquecer-se de si mesmo. Ali ele era só a placa. A mensagem.

 

Quando chegou em casa e deu a notícia a esposa era só alegria. “Vai tirar de letra!” – disse a mulher. De fato, tinha certa experiência.

 

Havia sido caixa em um supermercado. Somar,  somar na maquina registradora, pegar o dinheiro. Subtrair na máquina registradora. Trôco. “Cartão?” “Débito ou Crédito?” “O senhor já tem cartão do mercado?” “Não quer fazer uma recarga de celular?” Entre um produto e outro, arriscava um comentário, uma observação. Custou-lhe o cargo. “Você não é pago para falar, é pago para fazer a fila andar.”

 

Mas foi a experiência numa call center que lhe servia agora. Operador de Telemarketing. Na época o nome o impressionara bastante. Era uma sala enorme com várias pessoas atendendo telefones e fingindo serem computadores. “Converse o mínimo possível. Nosso objetivo aqui é ser tão eficiente quanto um computador. Computadores conversam? Não. Não fuja do roteiro.” Esforçava-se para não cair em tentação. Dizia para si mesmo que as vozes não eram de pessoas. Não havia humanos do outro lado da linha. Mas quando achava que estava pegando o jeito,  o mandaram embora. "Você é pessoal demais." A nova demissão foi bastante frustrante. Quase entrara em depressão.

 

Agora tinha uma nova oportunidade. Parecia fácil. Não ia errar dessa vez. Afinal,  precisava daquele salário. Pontualmente estava lá,  todo dia, quinze para as nove da manhã, vestindo seu instrumento de trabalho. Nos primeiros dias foi pesado, ficar em pé tanto tempo. Depois se acostumou. Não precisava falar. Não precisava sorrir. Nem entregar papéis. Nada.

 

A concentração era tanta que para aperfeiçoar-se resolveu falar o mínimo possível mesmo fora do horário de serviço. Não podia perder aquele emprego! Chegava em casa, beijava a esposa, olhava para a mesa da cozinha. Murmurava pelo jantar. Depois passou a gesticular. Um tapinha nas costas era o boa noite. Aos poucos a boca foi ficando seca. Foi esquecendo as palavras.

 

Ele era a placa.  E era uma ótima placa! Ninguém olhava seu rosto. Ninguém lhe dava bom dia. Viu como era bom no que fazia quando um casal parou na sua frente e a moça apontou. – “Olha a placa, amor! Você não queria uma lan?” Um dia,  quando chegou em casa notou que ainda vestia sua placa.

 

Suas costas começaram a enrijecer. Depois foram as pernas. Melhor,  conseguia ficar mais firme em sua posição. Não havia dor. Era uma espécie de resiliência adquirida. Como as palavras, flexibilidade não lhe era importante. Estava se tornando cada vez mais perfeito.

 

***

 

A mulher chegou do mercado, atrapalhada, abriu a porta em meio às sacolas. Soltou um grito. No lugar onde normalmente estaria sentado seu marido, havia apenas uma placa: “Lan house no segundo andar”.

 

homem placa

1 comentários:

Graziela Magna disse...

...é ....nos querem cada vez impessoais ...é o capitalismo sequestrando nossa subjetividade !!!

Parabens

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