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sábado, 7 de março de 2015

Doze respostas a quem “precisa do machismo”

 

Hoje é dia 8 de março, dia Internacional da Mulher. Ao longo desta semana tenho lido toda uma gama de absurdos a respeito da data e do feminismo nas redes sociais. Na verdade o presente texto foi escrito originalmente para o Facebook. Escolhi um post que vem sendo compartilhado e sintetiza bem todos esses preconceitos e disparates e resolvi “responder”, item por item, para ajudar meus colegas homens (e incrivelmente, algumas mulheres!) a não passar vergonha compartilhando essas besteiras por aí. O texto do Eduardo Santos (na figura abaixo) que circula no Facebook e motivou esse texto, mostra como é possível dizer muitas mentiras usando apenas verdades: uma colagem de dados bem montada para refletir um ponto de vista machista e misógino.

 

machismo

 

O que segue então são alguns esclarecimentos e correções ao colega:

 

1) Os casos de pensões são em geral favoráveis as mulher porque existe uma cultura do homem o provedor e a mulher dona de casa. Se a mulher deixa de trabalhar para viver em função a vida doméstica, é natural para a justiça que em caso de separação o homem mantenha uma pensão pelo tempo suficiente para ela se estabilizar. O tempo de pensões para ex-mulheres é cada vez mais curto e já existem vários casos no Brasil e no mundo homens que largaram o emprego para cuidar da casa RECEBENDO pensão de ex-mulheres.  Só não são mais numerosos porque a cultura ainda é patriarcal majoritariamente. Nos casos de pensão para os filhos, vale a mesma coisa. Quando o pai tem a guarda e a mãe tem dinheiro, ela paga pensão. Mas é raro acontecer isso, principalmente porque as disputas de guarda tendem a favorecer a mãe.  Não é feminismo. Nesse caso é ciência mesmo: vários estudos mostram que na espécie humana o vínculo  com a mãe nos anos de formação é maior por diversos fatores.

 

2) Homens não tem um dia internacional só para si: “Tadinhos de nós, homens! Precisamos de um dia para reivindicar nossos direitos negados! Ei... mas que direitos são esses? Humm...”.

 

Esse tipo de data marca geralmente um acontecimento histórico de luta ou tragédia para um determinado grupo. O Dia Internacional do Orgulho LGBT, por exemplo, começou como uma lembrança da Rebelião de Stonewall em 1969, quando homossexuais da comunidade local enfrentaram a polícia de Nova Iorque após uma série de abusos e perseguições inconstitucionais. O Dia Internacional da Mulher, para quem não sabe, remete ao Incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, em 1911, também em Nova Iorque. No episódio, 123 mulheres e 23 homens morreram. As trabalhadoras, a maioria jovens imigrantes, trabalhavam 14 horas por dia, 60-72 horas por semana, costurando vestuários com salários de 6 a 10 dólares por semana e em condições precárias. A data também é associada a uma rebelião de funcionárias têxteis 1857, na mesma cidade. A coincidência de datas fez gerar muitos mitos em torno dos eventos. Na década de 1980, houve uma tentativa de negar a veracidade do evento, um revisionismo histórico que tinha como principal objetivo atacar o movimento feminista, que era muito vinculado ao partido comunista. Felizmente existem fotos do incêndio de 1911, registros de óbitos de operárias, enfim, inúmeros registros que provam que o evento não foi simplesmente inventado. Em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas, para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres.

 

Considerando essas informações, por que nós homens deveríamos ter um Dia Internacional do Homem? Quais são as nossas reivindicações? Quais são as nossas conquistas contra a “opressão feminina”? Vamos comemorar o fim da sociedade matriarcal, 8 mil anos atrás?

 

3) Segundo um estudo do IPEA (fácil de encontrar na internet e disponível no site do instituto que cito nas fontes desse texto) a cada ano, ocorreram 5.664 mortes de mulheres por causas violentas: 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia.  Outro dado demonstra que as mulheres jovens foram as principais vítimas da violência fatal. Mais da metade dos óbitos (54%) foram de mulheres entre 20 e 39 anos. Dizer que morrem mais homens que mulheres no Brasil por violência doméstica não é só absurdo e inverídico, como é irresponsável. Calunioso.

 

4) Homens nas universidades: dado verdadeiro, mas deturpado. As mulheres realmente AGORA se tornaram maioria nas universidades. Isso é um fenômeno recente. E se deve ao simples fato de que os cursos majoritariamente femininos,  como os de licenciatura e pedagogia tem uma demanda muito grande por profissionais e consequentemente mais vagas que outros. As mulheres ainda são minoria na grande maioria dos cursos,  alguns com uma proporcionalidade totalmente masculina, como as engenharias e a medicina. A média remuneração pós-curso delas em pleno século XXI ainda é menor,  mesmo quando a formação é exatamente a mesma.

 

5) Câncer de próstata e hospitais femininos: novamente é um fenômeno recente que morram tantos homens por câncer de próstata que mulheres por câncer de mama. Até algum tempo atrás  essa proporção era totalmente desequilibrada. Simplesmente porque proporcionalmente os casos de câncer de mama são mais frequentes que os de próstata. Ou seja: se gasta mais para prevenir o câncer de mama porque proporcionalmente tem mais casos. Só assim as mortes se tornaram proporcionais. A verdade é que estamos bem nesse sentido,  avançamos muito. E agora as campanhas de prevenção do câncer de próstata estão cada vez mais frequentes.

 

Sobre Hospitais: hospitais de saúde da mulher estão diretamente relacionados ao sistema reprodutor. Tem mais hospitais de saúde da mulher do que de saúde do homem (eles existem!)  simplesmente porque a demanda é maior. Você tem ideia de quantos problemas no aparelho reprodutor feminino antes não podiam ser tratados e agora podem graças aos avanços na medicina? Mulheres também são as maiores vítimas da AIDS e em casos de estupro ou violência doméstica,  nem sempre recebem o devido tratamento num hospital comum. Tá explicado essa questão?

 

6) 80% dos moradores de rua são homens: Dado verdadeiro, mas deturpado. Sim, é bem verdade que a maioria dos moradores de rua são homens. Mas tem diversos fatores relacionados a isso. Mulheres em situação de desamparo tem muitas vezes a opção (que não é exatamente uma vantagem) da prostituição. Ou muitas vezes se sujeitam a um casamento violento e infeliz para não ter que morar na rua. A sociedade é patriarcal e paternalista, o número de homens morando nas ruas é um reflexo disso. Olha outro dado curioso: um estudo recente em São Paulo mostrou que maioria dos moradores de rua, quase 93%, são viciados em drogas. A dependência química também é mais frequente entre os homens, por diversos aspectos (entre eles a maior facilidade de acesso). Ou seja: as duas coisas estão também relacionadas.

 

7) Homens cometem 90% dos suicídios: Outro dado verdadeiro deturpado. Segundo dados da OMS, as mulheres tentam o suicídio 4 vezes mais que os homens, mas os homens o cometem (isto é, morrem devido a tentativa) 3 vezes mais do que as mulheres. Isso se explica pelo fato de os homens utilizarem métodos mais agressivos e potencialmente letais nas tentativas, tais como armas de fogo ou enforcamento, ao passo que as mulheres tentam suicídio com métodos menos agressivos e assim com maior chance de serem ineficazes, como tomar remédios ou venenos. Ou seja: os homens só morrem mais por suicídios por serem mais eficientes na hora de escolher os métodos. Freud explica.

 

8) O serviço militar é obrigatório apenas para homens: no Brasil isso é verdade. Para começo de conversa serviço militar não deveria ser obrigatório para ninguém! Mas ok, tendo dito isso, cá estamos nós, colhendo mais um fruto de anos de patriarcalismo. É mesmo necessário explicar isso? As mulheres vêm lutando por direitos iguais nas forças armadas tem séculos e alguém ainda tem a capacidade de citar o alistamento militar como uma desigualdade para os homens? Menos vagas, acesso vetado em diversos segmentos, números alarmantes de estupros... Preciso continuar?

 

9) Licença maternidade, aposentadoria e expectativa de vida: Já está mais que comprovado que o vínculo com a mãe nos primeiros meses e anos de vida na espécie humana é maior do que com o pai. É ciência, não é especulação. Tem diversos fatores evolucionários envolvidos nisso, mas alguns são bem óbvios. As mulheres amamentam (ou deveriam amamentar). Isso gera um vínculo muito forte. Tá aí o motivo para as mulheres terem licença maternidade de 180 dias e os homens de 5. Não subestimando o papel do pai e da paternidade, mas se fossemos dar para os dois 180 dias teríamos um problema sério de mão de obra. Então é mais lógico dar apenas para a mãe, que está biologicamente ligada a criança nos primeiros meses. Quando a mãe morre no parto, quando é incapaz, quando um homem adota uma criança sozinho, enfim, em todas essas situações ele também já tem acesso ao benefício.

 

Homens trabalham 5 anos a mais por vários motivos, entre eles porque mulheres normalmente tem jornadas de trabalho duplas, na rua e em casa (os casais que dividem os afazeres domésticos ainda são minoria). Homens também tendem a conservar a força física por mais tempo, o que permitiria certos trabalhos até uma idade mais avançada.

 

Ah, se homens vivem menos é porque comprovadamente tem hábitos menos saudáveis! A maioria dos fumantes são homens, a maioria dos consumidores de bebidas alcoólicas são homens, a maioria dos usuários de drogas são homens, homens também são mais competitivos, entram mais vezes em brigas e por isso tem mais chance de morrer de forma violenta.

 

10) Quando o Titanic... sério?!?!: Sério mesmo que eu acabei de ler isso? Então... O Titanic afundou em 1912, lá se vão 103 anos. Se hoje a sociedade ainda é majoritariamente patriarcal, imagina naquela época? Ainda vigorava um forte código cavalheiresco, que colocava a mulher em uma posição de fragilidade, algo a ser protegido. Também pudera! Nessa época uma dama respeitável não trabalhava fora (não tinha renda), não estudava, etc... Sendo assim, os homens simplesmente deram seus lugares às mulheres nos botes salva-vidas. Mesmo hoje em dia os homens tendem a salvar as mulheres e crianças primeiro em desastres e catástrofes naturais. E tem um motivo biológico para isso: reprodução e perpetuação da espécie. É instintivo.

 

11) Homens ocupam 95% de cargos como lixeiros, etc: outra verdade deturpada. Assim como nesses subempregos os homens são a maioria, em outros são as mulheres. Quase 100% das empregadas domésticas (que até pouco tempo nem direitos trabalhistas tinham) são mulheres, quase 100% das prostitutas são mulheres (que continuam sem ter direitos trabalhistas). Acrescentem nessa lista muitos outros empregos igualmente sacrificados, com jornadas de trabalho puxadas, como caixas de supermercados, atendentes de telemarketing, que são tipicamente femininos.

 

12) O trabalho é cobrado apenas do homem: Isso é um dos problemas do machismo. Você não pode viver numa sociedade machista sem algumas consequências, não é verdade? Então, como o modelo é patriarcal, as pessoas ainda insistem em olhar o homem como um “provedor natural” e a mulher como uma “dona de casa natural”. Mesmo em pleno século XXI! Consequentemente, quem fica com fama de vagabundo se fica o dia inteiro no sofá é o homem.

 

Se mesmo depois desses 12 itens você, homem, acha que “precisa do machismo”, que “precisa de um Dia Internacional do Homem”, ou coisa parecida, desculpa ae meu chapa, mas você deveria procurar mesmo é um terapeuta...

 

 

mulher

 

 

FONTES:

http://en.wikipedia.org/wiki/Triangle_Shirtwaist_Factory_fire

http://www.abcdasaude.com.br/psiquiatria/suicidio

http://www.ons.gov.uk/ons/taxonomy/index.html?nscl=Suicide+Rates

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeiraopreto/2013/08/1331884-maioria-dos-moradores-de-rua-sao-homens-desiludidos-com-o-amor.shtml

http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf

http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=21827

http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&id=19873

http://www.jb.com.br/pais/noticias/2015/03/04/lei-maria-da-penha-reduziu-violencia-domestica-contra-mulheres-segundo-ipea/

4 comentários:

Vitor Bornéo disse...

E você é muito gentil! Obrigado pela audiência e por deixar seu comentário! Não deixe de seguir o blog. :-)

ludofinal disse...


3) "Segundo um estudo do IPEA, a cada ano, ocorreram 5.664 mortes de mulheres por causas violentas: 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia."

Ah, tá! Segundo o IPEA, que é aquele mesmo que disse que a maioria dos entrevistados defende o estuprador e depois confessou que a pesquisa é falsa. Instituto muito sério mesmo.

4) "Cursos majoritariamente femininos, como os de licenciatura e pedagogia." Ué! O lugar da mulher é onde ela quer e do homem não? Você mesmo confessa que há algumas áreas equilibradas, enquanto há outras onde mulheres e outras homens atuam mais. Isso é simplesmente algo NATURAL.
"Alguns cursos tem uma proporcionalidade totalmente masculina, como as engenharias e a medicina." E você mesmo já explicou o motivo, no caso da engenharia. No caso de medicina e coisas do tipo, há muitos homens? Há! Há muitos mulheres? Sim! Há muitas mulheres na medicina.

9) e 7) "A média remuneração pós-curso delas em pleno século XXI ainda é menor, mesmo quando a formação é exatamente a mesma." Bem...
Aonde? Especifique. Não generalize, pois as professoras, por exemplo, ganham mais que os professores, mesmo que tenham a mesma formação também.

"Ah, se homens vivem menos é porque comprovadamente tem hábitos menos saudáveis!" E mesmo assim, as campanhas para que os homens cuidem da saúde são mínimas. Já campanhas pra que elas cuidem da saúde são aos montes.

"A maioria dos fumantes são homens, a maioria dos consumidores de bebidas alcoólicas são homens, a maioria dos usuários de drogas são homens" e isso só mostra ser homem não é ser privilegiados. Se é muito mais comuns homens perdidos nas drogas pesadas é porque é maior a quantidade de homens com depressão. 90% dos homens cometem suicídio e tá aí o motivo.

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