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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Manifesto Despudorado

Permitam-me, leitores, o anacronismo desse texto – sonhei que escrevia um manifesto à moda antiga, com ares de pau-brasil,  de antropofágico. Permitam-me também certa dose de pedantismo sem o qual fugiria  ao do próprio gênero que me proponho.

 

Tenho observado que em pleno século XXI o pudor ainda atormenta a arte. Causa-me angústias ver como o poeta constrange-se, o romancista encabula-se,  o cronista censura-se. Buscam fórmulas do que pode e não pode,  ora intimidados pelo politicamente correto,  ora amarrados pelos fios invisíveis da teoria literária.

 

Em tempos de hipocrisias mil,  senti que regredimos ao invés de avançar – as terras que deveriam abrigar um grande florescer criativo,  tornam-se um campo estéril e minado.

 

Pus-me então a escrever: é chegado,  senhores, o momento de um basta!

 

Clamo você, autor, não a razão. Esta é inimiga da arte. Clamo-te a emoção. Invoco bênção das nove musas. E escrevo.

 

Escrevo com a certeza que o texto precisa livrar-se da mácula do politicamente correto,  da ideologia. Permitir-se mesmo a pura e simples inutilidade. Não ter compromisso com nada nem ninguém além de si próprio.

 

Escrevo em defesa da literatura de seios à mostra. Desavergonhada. Despudorada.

 

Pois literatura precisa perder o pudor.  Usar minissaia,  fazer topless.  Para o texto não pode haver tabus, tão pouco fórmulas de perfeição. Não existe, nem nunca existirá, assunto,  palavra ou estrutura proibida à obra.

 

Perdoai os que têm medo de escrever McDonald'sCoca-cola, PlayStation, iPhone! Perdoai,  irmãos e irmãs, os que prostituem seu texto e sua literatura a serviço de uma "mensagem maior",  qualquer que seja. Estes não sabem o que fazem. Não sabem que reduzem o texto a mero instrumento. O texto não é um instrumento.  O texto é a causa. A literatura não é um meio. É o fim em si.

 

Vamos desvencilhar-nos da métrica, do modo. Das empobrecedoras constantes. Escrever da direita para esquerda,  da esquerda para direita ou de cabeça para baixo. Só para depois compor um soneto italiano. Porque a arte é assim: volúvel a vontade da criação.

 

Vamos falar de xotas, bucetas, paus, pirocas, estupros, incestos, pedofilia, antropofagia, megalomania, machismo, fascismo... Vamos falar de política. E de amor.  Falemos também de amor, por que não? Hoje em dia não existe putaria maior que esta. Não existe tema mais desavergonhado.

 

Vamos profanar o sagrado e sacramentar o profano. Porque maldita é a lira que se apraz do óbvio.

 

Disse e repito: o texto não pode ter pudor.  Não pode se privar do velho,  nem do novo.  Não há  águas imbebíveis para o texto.  O texto deve ser despudorado,  desavergonhado.

 

Deve ser nu.

 

Olhar uma folha em branco deve ser mais que olhar um caleidoscópio, uma infinidade de possibilidades. Deve ser um ato de voyeurismo.

 

Sonho com o dia em que o Despudorismo vai virar uma tendência.  E teremos aqui no Rio a Semana de Arte Despudorada.  E iremos todos nus: se não de roupas, ao menos de alma.

 

topless

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