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domingo, 9 de outubro de 2011

A velha do capuz

Por Vitor Bornéo

Hoje viu a morte pela primeira vez. Não foi como ver uma pessoa morta. Um corpo. Ou como viver uma situação a qual pensou que não fosse escapar. Isso tudo já tinha experimentado. Aquilo foi diferente. Foi ver a velha do capuz negro, agitando sua foice, ceifando... Rápida. Sem aviso. Inesperada. Foi sua primeira vez.

Esperava para atravessar a rua, em um cruzamento. A sua direita, do outro lado, onde de fato estava a faixa de pedrestes, um rapaz também aguardava, com sua mochila vermelha nas costas, o sinal abrir. Foi tudo muito rápido. Se estivesse olhando para outra direção ou mesmo distraído com os próprios pensamentos tudo já teria terminado antes que pudesse virar o rosto. Mas não estava. Não estava olhando para outra direção. Seus pensamentos estavam ali, bem ali. Viu tudo acontecer quadro a quadro: aquele segundo que depois lhe pareceria eterno.

Da rua de trás veio um ciclista, pela calçada. Estava distraído, parecia um entregador. Teria sido diferente se não estivesse. Mas estava. E em sua distração acertou em cheio as costas do rapaz que esperava. É provável que pretendesse parar ali, ao lado, aguarda o sinal abrir para depois seguir adiante. Seguiria pedalando e aquela tarde não significaria nada. Mas ao invés, lançou o rapaz da mochila vermelha direto na linha de uma Saveiro preta. Não houve chance para o motorista. O choque fez um barulho surdo – lembrou uma raquete de tênis acertando a bola ­– acompanhado pelos freios. Foram pelo menos dois metros rolando antes de parar quase ao seu lado.

O coração saltou à garganta junto com o impacto. Depois foi uma estranha anestesia, uma letargia. O peito ainda agitava, mas ficou ali, pasmado, observando o sangue se espalhar pelo asfalto. Pensou que deveria correr, buscar ajuda. Ligar para a emergência talvez. Mas ficou parado. Foi tudo tão rápido. Um pedestre de mochila vermelha. Um ciclista. Uma saveiro. Uma raquete de tênis. Freios. Um corpo. O ciclista – lembrou em uma das muitas vezes que a cena se repetiu devagar dentro de sua cabeça – ainda tentou segurar o rapaz pela mochila. A mochila vermelha. Mas foi tudo tão rápido, o impacto foi tão forte, que ficou apenas com uma alça arrebentada em sua mão. Da última vez que viu o ciclista ele estava perto do corpo. Foi antes das pessoas chegarem e cobrirem sua visão. Foi antes disso. Ele parecia estar gritando. Mas não lembra de ter ouvido a voz do homem. Só lembra que ele movia a boca e agitava os braços de um jeito engraçado, olhando para o rapaz no chão. Parecia estar morto. Tinha sangue demais... Aqueles pedaços no asfalto seriam miolos? Não, definitivamente ele estava morto. Ou iria morrer em instantes.

Tão escuro. O líquido que escorria dele era tão escuro. Sempre esperou um vermelho vivo, como via na TV. Mas aquilo era escuro, viscoso. Não era sensual. Não era bonito. Parecia piche. Pensou se o seu sangue também tinha aquele aspecto e imediatamente teve um asco de suas próprias veias. Uma náusea. Aquela cena ocupou o resto do seu dia. Três vidas encerradas num único instante. Não sabe quanto tempo teria ficado ali, observando aquele pobre infeliz sangrar em via pública, se o movimento dos curiosos não o tivesse naturalmente afastado. Nem lembra como saiu.

Quando voltava para casa, não conseguia parar de pensar nas possibilidades. Se o rapaz da mochila não estivesse ali? Teria sido o ciclista o atropelado, sem dúvida. Se a Saveiro não estivesse passando, seriam apenas arranhões e pedidos de desculpas. Às vezes ele também atravessava naquele sinal. Ele também atravessava naquele sinal. Reparou que havia pequenos respingos escuros na perna direita do seu jeans. Será que era sangue? Teria espirrado tão longe? Tirou a calça como se aquilo fosse contagioso, pôs-se a lavar como se estivesse limpando a própria pele. Esfregou, esfregou, esfregou. Não saía. Por mais que esfregasse, a sensação que tinha é que os respingos ainda estavam ali. Será que teriam acertado o resto da roupa também? Tirou rápido, esquadrinhou sua blusa, seu tênis, suas meias. Não viu nada, mas jurou que estava cheirando a sangue. Nunca havia, até então, parado para pensar em como seria o cheiro de sangue humano. Mas achou que estavam cheirando a sangue. Era melhor lavar. Não. Era melhor por tudo fora. Tudo num saco e na lixeira. Mas não resolveu. Não resolveu. Parecia que o cheiro estava nele. Foi para o banho, esfregou-se até quase se ferir. Mas ainda sentiu o cheiro quando saiu. Às vezes ele também atravessava naquele sinal. Às vezes ele também atravessava naquele sinal. Era o cheiro dela. Só podia ser o cheiro dela que ele sentia. Às vezes ele também atravessava naquele sinal.

Cruzamento

2 comentários:

Li. disse...

"eu vi a cara da morte e ela estava viva".
Acho que todos nós às vezes atravessamos naquele sinal.

Vitor Bornéo disse...

gostei disso... sempre fazendo comentários construtivos, dona Li :D

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