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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016 e os Cavalos de Kafka

Uma crônica de fim de ano é uma das tarefas mais ingratas que um escritor pode tomar para si. Todo mundo já sabe exatamente o que esperar desse tipo de texto, é algo como o “especial do Roberto Carlos da literatura”. Mas tudo bem, cá estou eu, e alguma coisa precisa ser dita. De cara me vem em mente dois caminhos diferentes para essa crônica.

O primeiro,  uma longa lamentação das mazelas do ano que passou. Isso iria render bastante,  admito. Não me entendam mal,  não acho que 2015 tenha sido exatamente pior que os outros anos como um todo. Uma tragédia aqui,  outra ali... Altas tretas em Brasília (e no Facebook), verdade. Tudo dentro da capacidade normal do ser humano de estragar tudo. Sem ineditismo. Mas para a lamentação sempre há assunto. Poderia fazer uma retrospectiva de acontecimentos gerais para cada  ano de história documentada e com cada uma arrancaria lágrimas. O mesmo vale para o ano individualmente. Eu,  particularmente,  perdi uma mulher,  um emprego,  dois peixes... Mas mesmo assim,  não acho que para mim tenha sido um ano pior que os outros 28 que já passaram. Penso que nós,  do auge da nossa eterna "síndrome da insatisfação" precisamos sempre condenar o ano que se encerra. Isso e, é claro, nossa necessidade de esperança. De acreditar que o ano seguinte será melhor, que coisas boas nos esperam, etc. Para isso, chegar à conclusão que o ano passado foi uma bosta ajuda bastante – admita, diminui bastante as expectativas. 

Isso me leva a segunda opção. Esta,  já aviso,  é igualmente monótona e ainda mais piegas: a ideia aqui é centrar nos votos para o ano seguinte, nas oportunidades e em tudo de maravilhoso que 2016 te reserva.  Bullshit! Ao menos que você ganhe na Mega da Virada,  é improvável que essas coisas sejam verdade. O ano novo de 2016 em si não te reserva absolutamente nada. Você provavelmente fracassará no projeto verão,  entrará no outono ainda mais gordo e sem bronzeado de praia,  e ainda cometerá os mesmos erros que cometeu em 2015.

E sabe por quê? Por que no fundo você também está esperando a mágica da virada de ano! Como se a simples mudança de um número no calendário gregoriano fosse mudar miraculosamente a mediocridade que você vive. Alô! Acorda! Foi só mais um movimento de translação,  só mais uma volta de uma pedra enorme em torno de uma bola de fogo. Uma dentre milhões,  infinitas  voltas. E nesta incrível dança mística você, meu caro,  não significa nada.

Mas não se desespere. Não quero desencorajar você. Você é um vencedor, afinal,  sobreviveu a 2015 (muita gente não pode dizer o mesmo, acredite). Amanhã não será o primeiro dia de 2016, do ano novo,  blá,  blá,  blá... Será, como dizem por aí, o primeiro dia do resto de sua vida. Assim como depois de amanhã. E depois também. E isso é mágico. Isso é incrível. Essa oportunidade que nos é dada todo santo dia. Nós, estas gotas de consciência num mar de escuridão inerte. Que maravilha somos nós! Milagres do acaso, mesmo em nossa mediocridade.


E para os caros amigos que estiveram ao meu lado ao longo deste ano, só resta dizer: somos todos órfãos de estrelas mortas e é com grande prazer que divido esse grão de poeira no tempo com vocês. 


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