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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dezessete graus

 

Houve essa ocasião...

 

Caminhava de volta para casa. Era dia de semana e mesmo não sendo tão tarde – o visor do celular ainda não marcava meia-noite – as ruas do Méier estavam quase desertas. Andava rápido. Aprendi com Rubem Fonseca que, ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro, não existe forma melhor de se evitar um assalto do que um passo veloz. Não que eu me sentisse inseguro. A gente sempre se sente mais seguro no seu próprio bairro, mesmo que essa sensação nem sempre condiga com a realidade. Já passava da metade do caminho quando o rapaz me abordou.

 

Notei-o vindo em minha direção e não senti necessidade de desviar. Não parecia perigoso. Ao contrário do que normalmente faria e das recomendações com as quais encho os ouvidos de meus amigos, hesitei por um segundo logo que notei a iminente abordagem. Olhei-o nos olhos e, é claro – olhar nos olhos nessas horas é quase como dizer “pois não?”–, foi o suficiente para que começasse a falar.

 

Por algum motivo entre a boa educação e a estupidez, parei para ouvi-lo. Como disse, não parecia ameaçador. Ao contrário, poderia mesmo ser um velho conhecido do qual eu não me lembrava, mas me reconhecia. Não tinha mais que trinta anos, caucasiano. Os cabelos eram curtos, castanhos claros. A cor dos olhos não me recordo, mas eram serenos. Notei na mesma hora que não se encaixava, definitivamente, no estereótipo de um assaltante e fiquei mais tranquilo. Cumprimentou-me adequadamente e pôs-se a falar de sua situação. Foi breve. Disse que recentemente tinha sido recusado em um emprego, mas estava esperando por outro. Essa noite, entretanto, precisaria dormir na rua e queria minha ajuda para comer alguma coisa. Surpresa outra vez! A primeira vista também não parecia um pedinte. Usava uma espécie de suéter verde-musgo, calça jeans, tênis já um pouco gasto. Não estava vestido muito diferente de mim. Talvez apenas o que nos diferenciasse fosse o leve cheiro de suor que indicava estar com aquelas roupas já fazia algum tempo.

 

Então, o pedido. O rapaz queria comer. Queria minha ajuda para comer. Mas assim que notei que se tratava de um pedinte, comecei novamente a caminhar devagar. Não, não poderia ajuda-lo, respondi. – Estou zerado, se tivesse, ajudava. – Não estava muito longe da verdade, mas ainda sim era uma mentira. Poderia ter um maço de notas na carteira que nem assim o teria ajudado. Aliás, se tivesse um maço de notas na carteira, talvez não tivesse nem parado – e não é sem alguma nenhuma vergonha que revelo isso.

 

Ele assentiu com a cabeça sem rancor aparente e continuou seu caminho, provavelmente na direção de um pequeno grupo de funcionários que aguardavam a condução na porta do restaurante após o turno recém-encerrado. Notei-me feliz com a possibilidade de que ali, talvez, alguém o ajudasse.

 

Comecei a pensar o que o teria feito estar na rua há essa hora, sem ter onde dormir. Isto é, se sua história fosse realmente verdadeira. Não era um morador de rua típico. Não. Mas também era óbvio que não estava em uma situação confortável. Será que eram drogas? Hoje em dia quase sempre é por causa de drogas. Não tinha parentes para pedir abrigo? Pai, mãe? Talvez tivesse problemas em casa. Talvez por causa das drogas. Fui matutando inúmeras possibilidades enquanto continuava minha caminhada.

 

Arrependi-me de não ter ajudado o rapaz. E como se a vida quisesse jogar isso na minha cara, passei por um termômetro. Marcava dezessete graus. Dezessete graus. Isso pode ser bem frio para uma cidade como o Rio de Janeiro. Passar uma noite inteira na rua com essa temperatura seria difícil. Com fome e com frio. Será que tinha agasalhos? Provavelmente não. Não era um morador de rua. Não tinha o aspecto de quem, endurecido pela vida, convive com esse tipo de situação quotidianamente.

 

Por que não o ajudei então? Um cachorro-quente não me faria mais pobre e naquele horário não faltavam opções de kombis onde poderia comprar eu mesmo um para o rapaz. Assim, estaria me certificando que o dinheiro era realmente para matar a fome. Caso não quisesse parar, poderia simplesmente ter lhe dado o dinheiro. Que diferença faria na minha vida se ele não o usasse para comer? Teria, como dizem, feito minha parte. Poderia ter lavado minhas mãos.

 

Mas não. Não o ajudei e, apesar dos incessantes pensamentos, nem ao menos olhei para trás. Quando cheguei em casa estava me perguntando quando exatamente isso tinha acontecido. Quando exatamente perdi a fé na filantropia? Ou será que em algum momento deixei de me importar? Confortei-me com a ideia de que, provavelmente, nunca mais iria vê-lo. A prova de minha mesquinharia se perderia entre os milhões de pessoas dessa cidade.

 

Naquela noite, porém, dormi com as mãos sujas.

 

2012-09-29 02.36.33

1 comentários:

Unknown disse...

Seu texto me fez lembrar algo que aconteceu comigo há algum tempo... estava comprando um sorvete no Mcdonalds e um menino de rua me pediu que pagasse um pra ele e eu recusei. Isso me machuca até hoje, aquela criança sofrida que de repente nunca teve a oportunidade de brincar na vida, queria um sorvete e eu disse que não. Realmente, para além de convicções políticas, quando essas coisas acontecem vc repensa sua posição em relação ao mundo, repensa sua própria humanidade.

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