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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Parla

, eu pedia. Eram as palavras que amava mais que tudo. Aquele jeitinho de escolher os vocábulos, aquelas frases pausadas, minuciosamente compostas,  tudo para me dar tempo de madurar um significado. Em vão: salvo uma expressão ou outra,  tudo que ela dizia era um grande mistério para mim. E mesmo presos em universos linguísticos diferentes, quando nos conhecemos, foi paixão a primeira vista.

Talvez tenha sido o vácuo deixado pelas palavras não compreendidas que nos levou inexoravelmente um até o outro –  ou, quem sabe, aquela musical cadência com a qual ela falava que me atraiu. Verdade seja dita, foi atração feroz. Eu não falava italiano e ela nada entendia do português, nem havia outra língua comum,  dado meu vergonhoso monoglotismo.  Mas bastou escutar – amei desde o primeiro instante aquele falar adventício.

Seu nome. Foi seu nome o que ouvi  primeiro. Tinha um "Chi" quase impossível para meu aparelho fonador. Repetia incessantemente apenas para vê-la rir da minha pronúncia. Uma risada cristalina. Universal. E ao nos entregarmos pela primeira vez, foi nesse fonema que tive mais prazer: eu dizia seu nome ao pé do ouvido,  como uma invocação; ela gemia palavras estranhas, estrangeiras.

Muitas vezes,  com palavras, nossa comunicação falhava. A maioria delas, na verdade. Ela dizia "No,  no,  no!" e eu já sabia que havia entendido errado. Ríamos juntos. Mas o que os vocábulos não diziam, nossos lábios entendiam. Frequentemente  falávamos através de nossos corpos – criamos nossa própria língua franca de gestos e sensações.

Nada sabia sobre ela, tão pouco ela sobre mim. Desconhecia sua história. O que fazia nessas terras tropicais. Ou o que via num brasileiro comum, ordinário, monolíngue. Só sentia. Seus desejos,  seus anseios. Tornamo-nos dependentes um do outro. Aquela fala me fazia falta como me faz o ar, a água. Aquela altura, viciei-me em seu idioma.

Passávamos todo tempo livre juntos até que finalmente veio morar comigo. Tentava me ensinar italiano com as partes de seu corpo, mas eu errava de proposito, só para ouvi-la me corrigir. 

"Ripeto: La bocca... Il petto... La figa." "No, no, no! La verità è coscia!",

“Parla!”, eu dizia. E queria mais. E embriagava-me no seu vocabulário.

Mas um dia, lembro-me bem daquele momento, eu a flagrei falando português. E não um balbuciar ininteligível: foi um português preciso,  ardilosamente pensado. Eu disse "Bravo!", mas no fundo não gostei daquele som. No fundo me senti traído com aquela apropriação linguística tão sorrateira. 

Talentosa, dedicada,  cada vez arriscava mais palavras na minha língua. E acertava mais. E por mais que sempre dissesse "In italiano, per favore!",  seu português não parava de melhorar.

Meu italiano também já não era mais o mesmo. Por mais que resistisse, meu cérebro teimava em traduzir o que eu ouvia... Os beijos eram apenas beijos. A boca era apenas boca.

E tivemos nossas primeiras brigas.  E quando na cama nos reconciliamos não foi "Più!" que ela sussurrou. E quanto mais perfeito era seu português,  menos eu a compreendia, menos a conhecia... E não tardou para não mais nos entendermos.


Sabia que estávamos próximos ao fim. Mas foi só quando ela me disse "eu te amo", com a mais perfeita das pronúncias, que tive certeza que estava acabado: não falávamos mais a mesma língua.


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