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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Crônica do amor primeiro

Foi o primeiro amor. Embora até hoje o significado dessa palavra me fuja à definição, é sempre nela quem penso quando falam em primeiro amor. Porque, convenhamos, o primeiro amor é diferente. Tem aquele ar pueril cheio de inocência. É tímido, desesperado, mais doce por ser ainda desprovido de toda e qualquer desilusão. O primeiro amor é especial. Mais do reino do sonho que do material. Quem dera todos os amores fossem primeiros e o adorável momento dos dez anos durasse para sempre.

 

Estava no auge do meu nono ano de vida – nove anos é uma idade especial porque em breve você fará dez, e dez, como todos os números redondos, tem um ar de importância. Fazia pouco que havia me mudado para a Vila de Baixo, uma das duas partes de uma vila maior que se bifurcava. Todos os dias, pela manhã, vestia meu uniforme da escola engomado com esmero e saia com minha mãe caminhando até o ponto de ônibus. Não sei há quantos dias, semanas ou meses já morava ali quando ocorreu aquele encontro. Contar o tempo nunca foi meu forte. O fato é que em uma dessas manhãs frias que tornam todas as histórias ainda mais românticas, eu a vi pela primeira vez.

 

Vestida de normalista, ela descia da Vila de Cima. Deu bom dia e foi-se embora, enquanto minha mãe ainda fechava o portão. Carregava um fichário estilo pasta, nada mais, e com seus cabelos ruivos parecia saída de um sonho. É bom avisar que qualquer descrição que hoje possa fazer desse meu primeiro amor, é no mínimo duvidosa. Muitos anos e outros amores nublam minhas recordações. Ela era sim, normalista, mas não tenho certeza que estava usando uniforme quando a vi pela primeira vez. Mas lembro que era uma manhã, então é provável que estivesse. Será que eram mesmo ruivos os cabelos? Acho que inventei isso, mas se não era, poderia muito bem ter sido. Em minha mente, ganhou no transcorrer do tempo um status de mito, de musa, e o fato é que naquele instante achei ter visto a mulher mais bonita do mundo. Mulher é uma licença que meus olhos de quase dez anos da época me permitem. Não devia ter mais que 16 anos. Mas aquele corpo cheio de curvas e os peitinhos já evidentes, eram para mim, no ápice da minha virilidade infantil, a visão absoluta da volúpia.

 

Sabia que os outros meninos também já a haviam notado, que a olhavam com cobiça. Mas ninguém, nenhum deles, como eu. Era o mais novo da turma e guardei para mim meus sentimentos desesperados – seria tomado por ridículo. As meninas a olhavam com desdem – porque era mais velha e mais bonita, eu pensava –, mas foi através de uma delas, uma amiga fiel daqueles tempos, que descobri seu nome: Anita.

 

(É claro que nem mesmo era este o seu nome. Devido ao caráter – quase – verídico desta crônica, seria expositório da minha parte revelar o verdadeiro nome da moça. Poderia ter a chamado de Joana ou Marcela. Mas Anita serviu bem. Poderia ter sido Anita. Poderia. Penso que alguns, que viveram este mesmo tempo, irão reconhecer a personagem, a vila, o autor. Quem sabe?)

 

Depois daquela manhã, meus dias tornaram-se uma espera pela próxima vez que a veria. Sonhava acordado com Anita, que tomava o lugar de todas as mocinhas dos filmes que via e dos livros que lia. Mas não demorou para a inocência da minha doce paixão ser ameaçada por um rumor terrível: diziam, na boca pequena, que na Vila de Cima funcionava uma “casa da luz vermelha”. E parecia ser lá, justamente na tal casa, que morava minha amada.

 

Naquela idade ainda brincava de Lego: nem sonhava em saber o que era isso. Dei umas espiadas e como não via a tal luz, fui procurar resposta para a questão na sabedoria sexagenária de minha avó, ainda viva. “Casa da luz vermelha?” e soltou uma gargalhada, como se aquela fosse a mais estúpida das perguntas, “Um redevu!”. Dei uma risada e sai de perto. Não queria arruinar minha imagem de rapaz sabido admitindo que não tinha a menor ideia do que seria o tal “redevu”...

 

Demorou, mas acabei descobrindo, e aqui novamente os anos me levaram como, o significava da tal palavra. Termas, casa de tolerância, ouvi muitos nomes de várias bocas diferentes até chegar num que não deixava dúvidas: “puteiro”. O que tinha de vulgar tinha de claro.

 

Fiquei atordoado, com o coração apertado, porque soube também que Anita era neta da cafetina (nessa altura eu já sabia o que exatamente era uma cafetina). Seria mesmo verdade? Nesse caso ela não trabalhava lá... ou trabalhava? Será que a própria avó a obrigava a prestar expediente no redevu? Se sim, devia ser a mais cara das profissionais. Tinha visto um filme em que leiloavam a virgindade de uma garota. Será que haviam feito isso com ela? Ela devia odiar aquele lugar. Odiar a avó. Odiar a vida.

 

As cinzas manhãs ficaram ainda mais cinza para mim. Passando por elas, a achava sempre com uma expressão triste. Odiava todos os homens que via descendo da Vila de Cima. Todos potenciais clientes. Todos podiam ter ocupado a cama de minha adorada. Fantasiava com o dia em que a resgataria da vida de tristeza e devassidão que levava. A tomaria nos braços e a levaria voando para uma casa no campo, nas montanhas, no sul do país . Sim, voando! Ainda queria voar aos nove anos. Ainda sonhava descobrir superpoderes adormecidos, que só vieram muito tempo depois, é bem diferente do que imaginei.

 

As vezes eu a via sentada perto do portão da minha vila, no ponto em que as duas se separavam. Normalmente era de noite. Ela ficava ali, sentada com o walkman, fones de ouvido. O que será que ela ouvia? Tinha certeza que eram as mesmas músicas românticas que eu mesmo escutava para sofrer por ela – sim, eu sofria! E como é doce o sofrer de amor dos nove anos! Achava que ela estava esperando alguém. Mas nunca vi ninguém chegar. Sonhava que ela estava esperando por mim. Que eu criasse coragem, que me declarasse.

 

Um dia, quando desci para ir a rua ela estava lá. Sentada. Os mesmos fones, o mesmo walkman. Passaria direto, como sempre fazia. Mas dessa vez foi diferente. Ela olhou para mim e sorriu. Sorri de volta. Ela perguntou se estava tudo bem. Eu disse que sim. Ela sorriu de novo. Disse meu nome. Eu sorri, porque nunca achei que ela soubesse o meu nome. Ela disse que é claro que sabia. Eu sorri de novo. Ela sorriu ainda mais e seu sorriso era como o sol da manhã. Eu cheguei mais perto, enxerguei seus contornos como nunca havia visto, tive certeza que ela era, de fato, a mulher mais linda do mundo. Ela, sem que eu percebesse, estava perto. E então, súbita e delicadamente, tocou meus lábios infantis com seus lábios de mulher. Eu ouvi as músicas. Eram as mesmas que escutava. Ela me amava, eu tive certeza. Nada mais importava. Nem escola. Nem o redevu. Nem minha família. Nada. Ela me amava. E nada mais importava.

 

Mas nada disso aconteceu. Nunca houve beijo. Nunca descobri qual eram as músicas. Mas houve um sorriso, esse aconteceu. Nem mesmo tenho certeza se ela realmente sorriu para mim ou sorriu de algum pesamento que passou voando, feito passarinho, pela sua cabeça. Para mim ou não, quando a vi olhando na minha direção, desviei o rosto morto de vergonha, como se me esquivasse de um raio.

 

Queria dizer que essa foi a última vez que vi Anita. Seria mais bonito assim. Um sorrio perdido como despedida de um amor nunca encontrado. Mas não foi. Eu a vi muitas outras vezes, e a história aqui fica triste, porque não sei dizer quando foi a última. Como todo mito, ela não teve um final. Foi sumindo, entrando em uma bruma. E quando vi, já não estava mais lá. Ninguém falava mais da casa da luz vermelha da Vila de Cima. Já não tinha mais Anita. Nem músicas. Nem walkman. Por fim, pouco depois dos meus dez anos chegarem realmente, até a Vila de Baixo se foi. Ah, que saudades daquelas tardes nubladas de domingo na velha vila do subúrbio.

 

Hoje, tantos anos depois, as vezes me surpreendo pensando em como estará Anita. Na certa casou, teve filhos. Deve ter uma vida completa, talvez parecida com a minha. Não acho que tenha ficado nenhum trauma da juventude com a avó cafetina. Até porque, duvido que a pobre senhora fosse mesmo cafetina, ou que na Vila de Cima funcionasse mesmo um redevu. Foi só imaginação da molecada e maldade da gente grande. Felizmente, tenho certeza que o leilão de sua virgindade nunca aconteceu em lugar algum além dos meus temores. Como será que ela estaria agora? Ainda seria a mulher mais bonita do mundo? Agora de fato, é uma mulher. Mas para mim, na minha memória, será sempre ninfeta. A Anita da Vila de Cima. Das manhãs cinzentas. Anita.

 

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