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terça-feira, 5 de junho de 2012

O Peixe

Tinha um peixe na prateleira ao lado da fila do caixa. Estava dentro de um saco, mas ainda era um peixe. E me olhava. Havia sido pescado e abandonado ali. Não pela mesma pessoa, obviamente. Mesmo assim me lançava aquele olhar esbugalhado como se eu tivesse culpa do seu destino de peixe pescado. Fiquei indignado. E enjoado também. Se não o tirassem dali, daqui a pouco começaria a feder. Uma fila lenta já era desgraça suficiente sem um peixe lamuriento se decompondo ao lado.

 

Passei pelo caixa, deixei um quinhão do meu esforço pelas minhas compras e sai, rápido, fugido. Mas não me adiantou. O peixe acusador não me largou. Sentia seu cheiro de cais do porto. Seus olhos, seus malditos olhos que nem na morte se fechavam, seguiam-me. Era um maldito, um maldito que não se colocava em seu lugar, lugar de peixe morto.

 

Cruzei com uma velha conhecida na rua. Olhei para ela pensando em cumprimentá-la e apavorei-me. Vi o peixe em seus olhos. Não a cumprimentei. Não tinha palavras naquele momento. Sentia que ele as devorava. Comia minhas palavras com aquela boca que abria e fechava sem som nenhum. Comia minhas palavras ainda dentro da minha própria boca!

 

Fiquei mudo. Mudo como um afogado. Como ele. Foi assim que morreu o peixe: afogado em ar. Agonizante, debatendo-se. Solidarizo-me com sua causa. O pobre tinha morrido afogado.

 

Foi somente que vi: todos estavam afogados. Eu. A caixa. A velha conhecida. Todos boiando inertes quando o peixe tornou-se pescado. Estivemos juntos desde então. Compartilhamos a mesma miséria.

 

2012-05-03 18.36.21-1-1

1 comentários:

Miria disse...

OLÁ AMIGA, VIM AGRADECER A VISTA E O CARINHO, QUANTO A RECEITA DA BOINA EU POSTEI NO MEU BLOG, E SO PEGAR. BJS.
http://mirokaartes.blogspot.com.br/

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