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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Porto

Ao caminhar pelas ruas escuras, ele se pergunta há quanto tempo o mar se retirou dali. Provavelmente, algum dia foi possível sentir o cheiro da maresia daquela rua. Hoje sentia apenas o característico cheiro de urina amanhecida. Onde antes havia marinheiros, agora putas baratas e de má aparência conversam e lançam olhares, apinhadas nas esquinas. Mas o arredor não deixa dúvida de que lugar é aquele. As construções pitorescas, degradadas pelo tempo, os armazéns cheios de vazio – com seus vidros quebrados, sempre se mostrando prestes a desabar, agora abrigam homens esquecidos e todo tipo de imundice. Mas não, eles não negam para que foram construídos. Alguns ainda carregam nomes sobre as portas, outros números, a maioria já se perdeu.

 

Ao caminhar pelas ruas escuras, ele experimenta uma solidão única. Sente a paz cheia de perigo que apenas o deserto de uma rua assim pode provocar. Vez por outra, cruza com alguém, algum outro caminhante noturno. Nesses encontros, tudo pode depender de um olhar. Rapidamente é preciso decidir entre o risco de continuar ou o de dobrar uma esquina. Sempre, sempre mantêm o rosto resoluto, indiferente. É importante não demonstrar medo. Na noite, o medo é inimigo da segurança: eles também têm medo – mesmo os mais entorpecidos. Um rosto sereno pode ser a diferença entre vida e morte. Andar rápido também é importante. Não é preciso temer o que não é capaz de te abordar.

 

De algum jeito, ele se sente bem entre os vadios, sob noite sem lua. O suor seca em suas roupas com a brisa. A embriaguez mantém uma leveza cretina nos seus passos. Sente-se imune à fadiga. Deseja que o dia não nasça jamais. Busca um novo beco, um outro bar. É como se sempre tivesse feito parte daquilo. E se nada, nada mais importasse.

 

No alto, o Morro. Guarda tudo. Observa tudo. Naquelas vielas a percussão pulsa com o ritmo cardíaco. Deuses antigos ainda parecem espreitar em cada canto, em cada batuque, em cada escadaria. O velho e o novo se misturam em uma paisagem mestiça. Pulsa vida. Mesmo nos maiores antros. Nos ovos coloridos dos botequins. No pequeno burguês que vem se sentir transgressor. Pulsa vida.

 

E é para lá que ele vai. É lá que a noite começa. É lá que a noite termina.

 

porto nizaia_cais-do-valongo

2 comentários:

Eloah disse...

Como sempre, Vítor, lindíssimo! Espero ainda ler muitos romances seus. Bjs

Vitor Bornéo disse...

e você, como sempre, uma crítica muito generosa, Eloah! ;-) Obrigado!

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