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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Matinal II

Por Vitor Bornéo

Comprimir-me entre os membros de outras pessoas me traz uma sensação estranha. Em alguns momentos me perco no todo, não sei mais o que sou eu e o que é outro. Onde começo ou termino. Levado a posições estranhas, ponho-me a meditar. Quando supero o incomodo, sinto uma espécie de transe suarento. Não deve ser algo muito diferente do que sentem aqueles gurus indianos em seus rituais de mortificação da carne. Às vezes até fecho os olhos, mas sem descuidar do tato, com medo de que a carteira suma durante meu nivana. Tento pensar que daquela lata de sardinha com pouco ar sairei mais puro. Pura ilusão, talvez. Normalmente saio fedendo e dolorido.

Nem sempre, porém, minhas viagens são exercícios de contração que desafiam a física espacial. Isso pode ser melhor ou pior, dependendo do ponto de vista. Como um animal moderno, não é todo dia que me encontro disposto a partilhar meu quinhão de solidão com qualquer desconhecido que ocupa o mesmo banco que eu. Em prol da civilização, contudo, aprendi a sair sempre armado com alguns sorrisos prontos e informações genéricas. Frases curtas que, se não encerram logo a conversa, pelo menos poupam daquele silêncio constrangedor que me faria parecer uma pessoa antipática. Por exemplo, sempre, uma vez por semana, dedico-me a dar uma olhada na tabela do campeonato brasileiro. Coisa rápida. Cinco ou dez minutos que não me farão falta e depois vão me permitir responder aquele senhor que, talvez porque não tenha ninguém para conversar em casa ou simplesmente precise muito se comunicar para não pensar no tempo que passa cada vez mais rápido com a velhice, que o Vasco anda mal, não ganha uma, que o problema é do técnico, que o Santos promete este ano...

Mal ou bem, sempre conheço gente. Certa vez uma senhora puxou prosa depois de eu ceder-lhe o lugar. Não sabia se sentava ou se ficava de pé, acho que não sabia nem aonde iria até que finalmente, para minha tranquilidade, resolveu pôr-se na cadeira antes que algum adolescente oportunista – do tipo que está sempre cansado – ocupasse o lugar fruto de minha gentileza. A velha tinha um carro que não dirigia mais. Tinha uma filha muito bonita que havia sido miss Estados Unidos e morreu. A miss tinha 40 anos. Muito bonita mesmo. “Precisava ser muito bonita mesmo para ser miss Estados Unidos! Bonita de cara. Bonita de dentes. De corpo. Ela era muito. Mas aí, veio uma doença e tirou ela.” Verbo engraçado. Tirou. Pensei que era menos mal. Antes uma doença que um ônibus ou caminhão ou motorista bêbado recém saído de um bar que havia entrado para assistir o jogo do Flamengo. Depois vi que era besteira. Tanto fazia o que matara à miss Estados Unidos. Senti-me privilegiado. Não é todo dia que se fala com a mãe de uma ex-miss. Mesmo morta. Como será que uma brasileira vira miss Estados Unidos? Seria o pai americano? A mulher na minha frente não tinha cara de gringa. Quem sabe um marido rico, com pinta de suíno, a tivesse levado daqui a contra gosto dos pais. Nesse caso poderia concorrer? Acho que uma miss precisa ser solteira. Ouvi algo assim em um programa de fofoca uma vez. Ou talvez a velha já estivesse tão caduca que nem soubesse mais em que país estava. Foi uma história interessante, a da miss. “Os rapazes passavam na rua e paravam para falar com ela. Eu disfarçava, fingia que olhava vitrine. ‘pede para ela me namorar’, diziam. Eu respondia ‘ela vai namorar, se quiser né?’”.

Fiquei observando a velha descer, tendo certeza de que ela não sabia onde estava. Deu pena. Depois esqueci.

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1 comentários:

Li. disse...

eu tinha uma coisa pra dizer. mas preferi dizer que achei lindo o texto.

sim, também tenho esses momentos de solidão compartilhada e acabo por ler e ouvir pedaços de poesia no meu insólito cotidiano. e, às vezes, vem de graça, sem nem precisar parar na frente da banca pra ler as manchetes do jornal ou o que tá rolando na novela das oito. é só esquecer um pouco do meu egoitismo de olhos vidrados e distantes numa paisagem de janela e olhar pro lado do corredor.

Escreva mais.

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