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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

E agora, quem poderá nos defender?

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Hoje a noite quando sai do trabalho fiquei com os olhos cheios d'água ao checar o Facebook pelo celular. A notícia era de uma perda. Notícia de morte. Nunca o vi pessoalmente e mesmo assim tive a sensação de que morria um conhecido. Nunca entendi essa ligação que as pessoas têm com figuras públicas,  reações de se descabelar e chorar. Nunca entendi até esse momento. Decidi então que precisava escrever sobre isso – o cronista antes de qualquer coisa é um oportunista, um abutre de emoções e cenas.   Mas o que dizer,  leitor? O que dizer? O que posso escrever que já não foi dito? Que os deuses me livrem de cair nas obviedades! Ai de mim! Você,  navegante de primeira viagem – também fã da ainda não citada figura pública e atraído até aqui pelo assunto – certamente fecharia este periódico para nunca mais voltar. E o outro,  já leitor habitue, diria "ora, mas que marasmo! O Bornéo tá perdendo a mão!". Difícil tarefa essa que me designei! Mas agora, ...

O placa

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  Sua função era não ser notado. Era menos importante do que a placa que vestia,  como um cavalete. "Lan House no segundo andar" – a mensagem não podia ser mais simples. Só tinha entrado na tal "lan house" uma vez,  para entrevista. Todo dia pegava e guardava seu instrumento de trabalho/uniforme num almoxarifado da própria galeria que ficava plantado na porta.   "Esse é um trabalho importante" eles disseram. "Você será a empresa lá fora,  o chamariz. Esse ramo de publicidade humana está crescendo muito. Se fizer um bom trabalho como placa aqui,  quem sabe um dia você possa chegar a outdoor.” Sentiu-se imbuído de uma importante tarefa. Abrir mão das vaidades individuais para promover a empresa. O importante era esquecer-se de si mesmo. Ali ele era só a placa. A mensagem.   Quando chegou em casa e deu a notícia a esposa era só alegria. “Vai tirar de letra!” – disse a mulher. De fato, tinha certa experiência. ...

Sinal vermelho

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Na chuva havia aquele homem, um senhor escrevendo num caderno molhado. As páginas já estavam manchadas pela tinta de caneta que se soltava. Para cada palavra que o velho escrevia, a água levava outras dez. Escorriam azuis, misturavam-se com as poças da calçada.   Em pouco tempo a calçada estaria cheia de palavras. Substantivos e adjetivos. Verbos e ideias que inexoravelmente escorreriam para o ralo. Virariam esgoto. E então o texto estaria completo. Lavado pela chuva. E nunca teria existido.   Todavia o molhado escritor parecia decido. Com uma angústia no rosto, palavra por palavra, não se dava por vencido.   Tive dó.   Mas quando o ônibus saiu e perdi a vista da janela, percebi que as palavras daquele homem, sejam lá quais fossem, eram mais verdadeiras que todas as que jamais escrevi.

Coisa de mãe

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Era Maricá, praia braba, oceânica. Naqueles dias a areia ainda era grande e branca. O mar um azul turquesa que só existe no verão.   A mãe estava pegando sol ao lado da barraca, acompanhada de outra mãe, amiga descartável da praia. Conversava com olhos atentos: o seu estava logo abaixo, brincando com as outras crianças na areia molhada, indo e fugindo das ondas.   “Não fica de costas para a onda!” gritava em alerta. “Não fico!”, respondia o filho quase sem pensar. Estava completamente imerso em suas importantes ocupações de engenheiros de castelos temporários, caçador de tatuís e colecionador de conchas. Havia um casal de irmãos da mesma idade e como criança solta logo se entende, antes de saberem os nomes uns dos outros os três já brincavam juntos.   “A onda, olha a onda! Presta atenção!”   “Tá bom!”, respondia envergonhado.   Então uma das crianças gritou “Que é aquilo lá?” e apontou para umas coisas pretas que entravam e saiam da água mais...

Visão de Carnaval

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Vamos juntos cortando a multidão, com cuidado para não nos perder. Vou na frente, abro caminho entre foliões bêbados e cansados para ela passar tranquila. Passamos por uma mulher, um Neandertal, um policial, um bombeiro... Todos de mentira, menos o Neandertal. Não choveu, mas a rua está molhada. A Cidade está fedendo a cerveja e a urina fresca. Mesmo assim estão todos sorrindo e eu sorrio também. Sorrio pelo hábito. Um sorriso cheio de tensão, mas um sorriso.   Em algum lugar está tocando uma marchinha. Lembro o que estou fazendo aqui. É para lá que vamos. Parece que alguma coisa explodiu. Não me assusto porque ninguém se assusta. Hoje somos todos um só.   Com a desculpa de não dos perdermos, estendo minha mão para atrás. Só quero sentir seu toque. Aperto o passo sem soltar sua mão. Ela anda com cuidado para não sujar os pés. Parece deslumbrada e assustada enquanto salta com um jeito de bailarina.   Corro uma esquina, duas, três... Para onde nós vamos? Esse ca...

A Menina e o Gigante a vapor

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Em outro tempo, em outro lugar, havia uma Menina. Uma Menina que morava perto de um Bosque, um grande e belo bosque, cheio de árvores frutíferas, animais e flores coloridas. E o amava. Amava daquela forma que só as crianças são capazes de amar, aquela capacidade de ternura que o tempo vai levando, inverno após inverno.   Foi no fundo do Bosque, onde as árvores cresciam mais altas que o sol, que a Menina o encontrou: um gigante todo feito de metal. Tinha o tamanho de uma pequena árvore e pelo seu corpo havia dezenas de pistões e engrenagens à mostra. Na barriga, ou no lugar onde deveria ser a barriga, ficava uma fornalha, igualzinha as que a Menina tinha visto nas locomotivas a vapor.   Seus olhos eram fendas vazias, mas bem lá no fundo podia-se ver um brilho leve, opaco e triste. Teve então, a Menina, dó do Gigante, sozinho, abandonado naquele canto escuro do Bosque. Lembrou-se de como faziam para os trens funcionarem, juntou um pouco de lenha que estava espalhada a su...

A Barbearia

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Costumava ir a uma barbearia, dessas bem tradicionais. Hoje em dia lugares assim são difíceis de encontrar – entraram em extinção nos anos 1990 graças ao metrossexual moderno e aos salões de beleza unissex. Imaginem então o quão grande foi minha felicidade quando numa tarde, voltando do almoço, deparei-me com uma dessas num cantinho esquecido, entre a Tijuca e a Praça da Bandeira.   Perto da porta um escudo do Vasco dividia espaço com um do América e adiante, dois homens compenetrados trabalhavam de jaleco branco. Tinha um piso xadrez, preto e branco, – nem de longe tão limpo quando dos salões de beleza – do tipo que se usava muito na década 1960, e uns bancos de couro com jornais e cadernos de esportes abertos. Nenhuma revista de fofoca. Sobre ele, um gato branco e muito sério dizia claramente que havia chegado primeiro.   Era uma beleza! Não que eu tenha qualquer coisa contra salões, mas o clima de uma barbearia é incomparável. Ao entrar, notam-se logo duas diferença...

História de samba

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Não sei exatamente quando surgiu meu amor pelo samba. Mas se volto em busca de uma primeira memória, chego até aos meus tempos de moleque, lá em Quintino. Vem-me a imagem de minha avó cantando “Último desejo” enquanto cozinhava e punha a roupa na máquina de lavar. Era comum que cantasse enquanto cumpria seus afazeres domésticos e – já que ela costumava começar cedo – não foram poucas as vezes que acordei assim, com música. “As rosas não falam”, “Retalhos de cetim”, “Bandeira branca”... Seu repertório era dos melhores e aprendi amar as canções que ouvia muito tempo antes de saber nomear os seus compositores.   Mas se meu amor pelo samba é coisa antiga, o hábito, este é recente.   Domingo passado, dia 2 de dezembro, foi Dia Nacional do Samba: uma data que até uns dois anos atrás nem sequer sabia da existência. Foi nessa época que através de uma colega do trabalho (que mais tarde descobri ser um daqueles irmãos perdidos no mundo que a gente às vezes tem, mas desconhece) f...

Resposta do Rio

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Essa semana li que Niterói foi eleita por um site gringo como a cidade do mundo com mais mulheres bonitas. Vou confessar: como carioca e apaixonado pela espécie, senti-me um pouco enciumado. Como assim, Niterói desbancando o Rio? Como uma cidade que chama “joelho” de “italiano” pode desfrutar de tamanha honraria?   Depois contemporizei: o que afinal esses americanos entendem de mulher? Que importa se de lá saíram várias top models internacionais? A beleza da carioca vai muito além das passarelas!   Só quando recobrei a razão, notei que estava sendo vítima do meu próprio bairrismo. A verdade é que nós, cariocas, temos certa má vontade com nossa irmã mais nova fluminense. Não é uma coisa declarada, como é o caso com São Paulo – nossa arquirrival de concreto e cinza. Carioca não leva Niterói muito a sério relegando-a um status de “café com leite”. É quase um distrito do Rio de Janeiro, ou um bairro grande, que fica do outro lado da Baía. Sinônimo de longe, de ponte, de b...

uma confissão

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  Durante a noite encontro uma liberdade para escrever que por algum motivo o sol não me permite. Notei recentemente que meus textos têm ficado cada vez mais parecidos com relatos. Ilusão. Não são estes textos mais relatos que outros antes escritos. Mais pessoais. Todos são algum produto do que acontece quando torço. E sangro. São o que escorre. Não são meus relatos. Não são minhas confissões. São uma conversa causal, uma voz que empresto a uma porção de mundo oculta, querendo mostra-se. São clichês. São notas noturnas do óbvio. Mentiras absolutas. Mas verdadeiras.  

de como não conheci meu grande amor

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Foi em uma noite de segunda-feira. Olhou-me curiosa por detrás de seu sanduíche quando me sentei – toda a solidão do mundo naquele sanduíche.   Tinha olhos cansados, do tipo que parecem fartos do mundo, mas que ainda não desistiram dele. Protegidos por óculos de grossos aros olhavam para um celular, sem parar, esperando uma ligação que não vinha. A frustração só a fazia mais bela.   Compreendi que a solidão dela era minha solidão.   Sozinha. E linda. Era o outono. Ali, da mesa ao lado, apaixonei-me imediatamente. Naquele fast food vazio, éramos feitos um para o outro.   Inquieta, parecia incomodada com um dos seus cachos que teimava em cair sobre o rosto. Tinha cachos castanhos e uns olhos de amêndoa.   O telefone não tocava. Sentia seu desalento. Pensei que deveria pular para a mesa do lado, juntar nossas solidões.   Não espere mais , eu diria. Também cansei de esperar. Esse tempo passou. Vem comigo. Vamos viver. Gritar esse berro ...

A Pátria de controle remoto

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Hoje à noite, quando cheguei em casa e vi a TV ligada com todos aqueles personagens estranhos foi como se alguma coisa em minha sala estivesse faltando. Confesso, o final de Avenida Brasil me deixou meio órfão. Jantar acompanhado de Rita, Carminha, Tufão e companhia, já fazia parte das minhas noites. Não assistia a uma novela com uma fidelidade tão canina há anos!   Esse é o momento que, em choque, você leitor fiel, fala "é sério isso? Ele escreveu uma crônica sobre novela mesmo?" Sim. Escrevi. E vou perdoá-lo se quiser parar de ler agora. Fidelidade não está na natureza do leitor mesmo. Além do que, essa é outra daquelas longas crônicas, que ninguém tem mesmo paciência de ler inteiras.   Quando comecei a escrever, enumerava argumentos de porque Avenida Brasil revolucionou muitos aspectos do nosso já conhecido folhetim das vinte e uma horas. Logo, porém, vi que não era isso que eu realmente queria fazer. Poderia escrever páginas e páginas rebaten...

dos livros que não li

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Ultimamente tenho olhado minhas prateleiras, abarrotadas e tortas, com uma sensação cada vez mais forte de insignificância. Amo livros ao ponto de possuir inúmeros que nunca abri. Andei fazendo as contas e no final os números são sempre frustrantes. Se vivesse para contemplação e lesse um livro por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, duvido que vivesse o bastante para dar conta de tudo que desperta meu interesse.   Pensando bem, até consigo conviver amigavelmente com os que nunca abri. Mas um livro interminado é como aquele caso de amor mal resolvido. Aquele afastamento sem final, sem definição. Que fica ali, figurando, acenando no tempo para você a possibilidades do que poderia ter sido: por mais que o coloque de volta na estante, sempre haverá um marcador, uma prova de sua capitulação.   Perseguem-me assim muito mais os livros que nunca li dos que o que nunca escrevi.   Houve aqueles que eram tão bons que, na medida em que o monte de páginas não ...

A Dança de Acasalamento do Tangará ou A Democracia Darwiniana

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Este ano havia prometido que não escreveria nem uma linha sobre as eleições. Claro que essa promessa não incluía os comentários maliciosos nas redes sociais, digo isso literariamente falando. Tenho certa tendência a achar que engajamento diminui a qualidade de um texto literário. Não é que acredite nisso como uma verdade universal – acredito em poucas verdades universais –, nem que não reconheça diversas exceções. Mas via regra, torço o nariz para tudo que é panfletário demais.   Enfim o pleito passou, não teremos segundo turno em São Sebastião do Rio de Janeiro... e aqui estou eu, quebrando minha promessa. Acontece que na manhã de segunda-feira, quando saí de casa para ir trabalhar, senti uma espécie de vazio... Como aqueles que nos acometem logo após grandes eventos que agitam a cidade, arrebatam paixões e então terminam, deixando apenas cinzas e o clima de província – no caso, ficou o lixo deixado pelos candidatos.   É que para mim, eleição sempre foi assim, meio fe...

Dezessete graus

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  Houve essa ocasião...   Caminhava de volta para casa. Era dia de semana e mesmo não sendo tão tarde – o visor do celular ainda não marcava meia-noite – as ruas do Méier estavam quase desertas. Andava rápido. Aprendi com Rubem Fonseca que, ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro, não existe forma melhor de se evitar um assalto do que um passo veloz. Não que eu me sentisse inseguro. A gente sempre se sente mais seguro no seu próprio bairro, mesmo que essa sensação nem sempre condiga com a realidade. Já passava da metade do caminho quando o rapaz me abordou.   Notei-o vindo em minha direção e não senti necessidade de desviar. Não parecia perigoso. Ao contrário do que normalmente faria e das recomendações com as quais encho os ouvidos de meus amigos, hesitei por um segundo logo que notei a iminente abordagem. Olhei-o nos olhos e, é claro – olhar nos olhos nessas horas é quase como dizer “pois não?”–, foi o suficiente para que começasse a falar. ...

Memorabilia

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  "Que maravilha", ela disse. Eu concordei com um sorriso silencioso. Era mesmo uma maravilha, uma coisa sublime. Imagens de dois projetores se cruzavam para formar uma terceira na parede da sala escura.   Mas era outra a forma que eu contemplava.   No escuro, era apenas contorno e perfume. Não aqueles que se compra em loja. Não. Era um daqueles odores impossíveis de serem engarrafados, tão perfeitos que só existem na natureza, em estado bruto: o cheiro de terra molhada em uma tarde cinza, das ondas se quebrando na praia de Maricá, ou dos bolinhos de chuva com café de minha avó – um perfume que sozinho é capaz de parar o tempo ou invocar todo um sentimento.   Entorpecido, fiquei ali, parado... Com algum cuidado, conseguia ouvir sua respiração em meio ao silêncio. Ou talvez fosse a minha que escutasse.   "Queria um desses para mim."   Sim, sem dúvida. Eu queria.   Percebi que ali no escuro, naquela sala de m...

do resto do mundo

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Dizem por aí que descobriu-se uma nova forma de vida. Muito ainda há de se debater quanto ao seu nicho ecológico, mas já definiu-se seu hábitat: espalhado por toda parte, vive onde ninguém mais quer estar. Seu espaço natural começa onde termina tudo que olhos saudáveis querem ver. Verdadeira maravilha da evolução, é incrivelmente adaptável. Reproduz-se com muita facilidade, acomodando-se na sujeira, servindo-se de excrementos e restos. Acredita-se que por isso esteve por tanto tempo esquecido: por instinto, o evitamos, já que tal modo de vida faz com que exale fortes odores – que parecem funcionar como defesa natural da espécie.   Alguns exemplares apreciam lugares escuros, longe dos olhos curiosos. Construções abandonadas, ruas desertas e infectas, lixões ou sob o pouso de viadutos: todos esses são pontos onde podem ser facilmente encontrados. Outros são mais exibicionistas e não se importam em mostrar a todos a miséria de sua existência. Esses são vistos com desconfiança e po...

Crônica do amor primeiro

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Foi o primeiro amor. Embora até hoje o significado dessa palavra me fuja à definição, é sempre nela quem penso quando falam em primeiro amor. Porque, convenhamos, o primeiro amor é diferente. Tem aquele ar pueril cheio de inocência. É tímido, desesperado, mais doce por ser ainda desprovido de toda e qualquer desilusão. O primeiro amor é especial. Mais do reino do sonho que do material. Quem dera todos os amores fossem primeiros e o adorável momento dos dez anos durasse para sempre.   Estava no auge do meu nono ano de vida – nove anos é uma idade especial porque em breve você fará dez, e dez, como todos os números redondos, tem um ar de importância. Fazia pouco que havia me mudado para a Vila de Baixo, uma das duas partes de uma vila maior que se bifurcava. Todos os dias, pela manhã, vestia meu uniforme da escola engomado com esmero e saia com minha mãe caminhando até o ponto de ônibus. Não sei há quantos dias, semanas ou meses já morava ali quando ocorreu aquele encontro. Conta...

O Peixe

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Tinha um peixe na prateleira ao lado da fila do caixa. Estava dentro de um saco, mas ainda era um peixe. E me olhava. Havia sido pescado e abandonado ali. Não pela mesma pessoa, obviamente. Mesmo assim me lançava aquele olhar esbugalhado como se eu tivesse culpa do seu destino de peixe pescado. Fiquei indignado. E enjoado também. Se não o tirassem dali, daqui a pouco começaria a feder. Uma fila lenta já era desgraça suficiente sem um peixe lamuriento se decompondo ao lado.   Passei pelo caixa, deixei um quinhão do meu esforço pelas minhas compras e sai, rápido, fugido. Mas não me adiantou. O peixe acusador não me largou. Sentia seu cheiro de cais do porto. Seus olhos, seus malditos olhos que nem na morte se fechavam, seguiam-me. Era um maldito, um maldito que não se colocava em seu lugar, lugar de peixe morto.   Cruzei com uma velha conhecida na rua. Olhei para ela pensando em cumprimentá-la e apavorei-me. Vi o peixe em seus olhos. Não a cumprimentei. Não tinha palavra...

Feroz

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Lembro que todas as cinzas manhãs fazia aquele caminho. Era uma casa construída sobre rocha, de modo que para chegar até ela, subia-se dois longos lances de escadas rentes ao paredão de pedra crua. Em cima havia um pequeno portão e uma amurada que separava o quintal de uns bons dez metros de queda. O parapeito era sustentado por uma sequência de pequenos pilares brancos, jônicos, que davam ar senhorial a fachada.   Foi lá que eu o vi.   Da primeira vez, achei que fosse saltar pelo vão da amurada tão disposto para fora estava, desafiando a altura. Não. Ficava ali, parado, olhando o movimento. Como um gárgula no topo de uma torre. Silencioso. Era completamente branco. Olhava tão fixamente para frente que poderia mesmo ser confundido com uma estátua se não estivesse em uma posição tão inusitada. Na manhã seguinte voltei a olhar e lá está ele. Na mesma posição. Parecia nunca ter saído dali. Passei a esperar por aquele trecho da viagem todas as manhãs, só para observar aque...