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Mostrando postagens com o rótulo Conto

O placa

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  Sua função era não ser notado. Era menos importante do que a placa que vestia,  como um cavalete. "Lan House no segundo andar" – a mensagem não podia ser mais simples. Só tinha entrado na tal "lan house" uma vez,  para entrevista. Todo dia pegava e guardava seu instrumento de trabalho/uniforme num almoxarifado da própria galeria que ficava plantado na porta.   "Esse é um trabalho importante" eles disseram. "Você será a empresa lá fora,  o chamariz. Esse ramo de publicidade humana está crescendo muito. Se fizer um bom trabalho como placa aqui,  quem sabe um dia você possa chegar a outdoor.” Sentiu-se imbuído de uma importante tarefa. Abrir mão das vaidades individuais para promover a empresa. O importante era esquecer-se de si mesmo. Ali ele era só a placa. A mensagem.   Quando chegou em casa e deu a notícia a esposa era só alegria. “Vai tirar de letra!” – disse a mulher. De fato, tinha certa experiência. ...

Visão de Carnaval

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Vamos juntos cortando a multidão, com cuidado para não nos perder. Vou na frente, abro caminho entre foliões bêbados e cansados para ela passar tranquila. Passamos por uma mulher, um Neandertal, um policial, um bombeiro... Todos de mentira, menos o Neandertal. Não choveu, mas a rua está molhada. A Cidade está fedendo a cerveja e a urina fresca. Mesmo assim estão todos sorrindo e eu sorrio também. Sorrio pelo hábito. Um sorriso cheio de tensão, mas um sorriso.   Em algum lugar está tocando uma marchinha. Lembro o que estou fazendo aqui. É para lá que vamos. Parece que alguma coisa explodiu. Não me assusto porque ninguém se assusta. Hoje somos todos um só.   Com a desculpa de não dos perdermos, estendo minha mão para atrás. Só quero sentir seu toque. Aperto o passo sem soltar sua mão. Ela anda com cuidado para não sujar os pés. Parece deslumbrada e assustada enquanto salta com um jeito de bailarina.   Corro uma esquina, duas, três... Para onde nós vamos? Esse ca...

A Menina e o Gigante a vapor

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Em outro tempo, em outro lugar, havia uma Menina. Uma Menina que morava perto de um Bosque, um grande e belo bosque, cheio de árvores frutíferas, animais e flores coloridas. E o amava. Amava daquela forma que só as crianças são capazes de amar, aquela capacidade de ternura que o tempo vai levando, inverno após inverno.   Foi no fundo do Bosque, onde as árvores cresciam mais altas que o sol, que a Menina o encontrou: um gigante todo feito de metal. Tinha o tamanho de uma pequena árvore e pelo seu corpo havia dezenas de pistões e engrenagens à mostra. Na barriga, ou no lugar onde deveria ser a barriga, ficava uma fornalha, igualzinha as que a Menina tinha visto nas locomotivas a vapor.   Seus olhos eram fendas vazias, mas bem lá no fundo podia-se ver um brilho leve, opaco e triste. Teve então, a Menina, dó do Gigante, sozinho, abandonado naquele canto escuro do Bosque. Lembrou-se de como faziam para os trens funcionarem, juntou um pouco de lenha que estava espalhada a su...

Dezessete graus

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  Houve essa ocasião...   Caminhava de volta para casa. Era dia de semana e mesmo não sendo tão tarde – o visor do celular ainda não marcava meia-noite – as ruas do Méier estavam quase desertas. Andava rápido. Aprendi com Rubem Fonseca que, ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro, não existe forma melhor de se evitar um assalto do que um passo veloz. Não que eu me sentisse inseguro. A gente sempre se sente mais seguro no seu próprio bairro, mesmo que essa sensação nem sempre condiga com a realidade. Já passava da metade do caminho quando o rapaz me abordou.   Notei-o vindo em minha direção e não senti necessidade de desviar. Não parecia perigoso. Ao contrário do que normalmente faria e das recomendações com as quais encho os ouvidos de meus amigos, hesitei por um segundo logo que notei a iminente abordagem. Olhei-o nos olhos e, é claro – olhar nos olhos nessas horas é quase como dizer “pois não?”–, foi o suficiente para que começasse a falar. ...

Memorabilia

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  "Que maravilha", ela disse. Eu concordei com um sorriso silencioso. Era mesmo uma maravilha, uma coisa sublime. Imagens de dois projetores se cruzavam para formar uma terceira na parede da sala escura.   Mas era outra a forma que eu contemplava.   No escuro, era apenas contorno e perfume. Não aqueles que se compra em loja. Não. Era um daqueles odores impossíveis de serem engarrafados, tão perfeitos que só existem na natureza, em estado bruto: o cheiro de terra molhada em uma tarde cinza, das ondas se quebrando na praia de Maricá, ou dos bolinhos de chuva com café de minha avó – um perfume que sozinho é capaz de parar o tempo ou invocar todo um sentimento.   Entorpecido, fiquei ali, parado... Com algum cuidado, conseguia ouvir sua respiração em meio ao silêncio. Ou talvez fosse a minha que escutasse.   "Queria um desses para mim."   Sim, sem dúvida. Eu queria.   Percebi que ali no escuro, naquela sala de m...

do resto do mundo

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Dizem por aí que descobriu-se uma nova forma de vida. Muito ainda há de se debater quanto ao seu nicho ecológico, mas já definiu-se seu hábitat: espalhado por toda parte, vive onde ninguém mais quer estar. Seu espaço natural começa onde termina tudo que olhos saudáveis querem ver. Verdadeira maravilha da evolução, é incrivelmente adaptável. Reproduz-se com muita facilidade, acomodando-se na sujeira, servindo-se de excrementos e restos. Acredita-se que por isso esteve por tanto tempo esquecido: por instinto, o evitamos, já que tal modo de vida faz com que exale fortes odores – que parecem funcionar como defesa natural da espécie.   Alguns exemplares apreciam lugares escuros, longe dos olhos curiosos. Construções abandonadas, ruas desertas e infectas, lixões ou sob o pouso de viadutos: todos esses são pontos onde podem ser facilmente encontrados. Outros são mais exibicionistas e não se importam em mostrar a todos a miséria de sua existência. Esses são vistos com desconfiança e po...

Crônica do amor primeiro

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Foi o primeiro amor. Embora até hoje o significado dessa palavra me fuja à definição, é sempre nela quem penso quando falam em primeiro amor. Porque, convenhamos, o primeiro amor é diferente. Tem aquele ar pueril cheio de inocência. É tímido, desesperado, mais doce por ser ainda desprovido de toda e qualquer desilusão. O primeiro amor é especial. Mais do reino do sonho que do material. Quem dera todos os amores fossem primeiros e o adorável momento dos dez anos durasse para sempre.   Estava no auge do meu nono ano de vida – nove anos é uma idade especial porque em breve você fará dez, e dez, como todos os números redondos, tem um ar de importância. Fazia pouco que havia me mudado para a Vila de Baixo, uma das duas partes de uma vila maior que se bifurcava. Todos os dias, pela manhã, vestia meu uniforme da escola engomado com esmero e saia com minha mãe caminhando até o ponto de ônibus. Não sei há quantos dias, semanas ou meses já morava ali quando ocorreu aquele encontro. Conta...

Feroz

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Lembro que todas as cinzas manhãs fazia aquele caminho. Era uma casa construída sobre rocha, de modo que para chegar até ela, subia-se dois longos lances de escadas rentes ao paredão de pedra crua. Em cima havia um pequeno portão e uma amurada que separava o quintal de uns bons dez metros de queda. O parapeito era sustentado por uma sequência de pequenos pilares brancos, jônicos, que davam ar senhorial a fachada.   Foi lá que eu o vi.   Da primeira vez, achei que fosse saltar pelo vão da amurada tão disposto para fora estava, desafiando a altura. Não. Ficava ali, parado, olhando o movimento. Como um gárgula no topo de uma torre. Silencioso. Era completamente branco. Olhava tão fixamente para frente que poderia mesmo ser confundido com uma estátua se não estivesse em uma posição tão inusitada. Na manhã seguinte voltei a olhar e lá está ele. Na mesma posição. Parecia nunca ter saído dali. Passei a esperar por aquele trecho da viagem todas as manhãs, só para observar aque...

O Porto

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Ao caminhar pelas ruas escuras, ele se pergunta há quanto tempo o mar se retirou dali. Provavelmente, algum dia foi possível sentir o cheiro da maresia daquela rua. Hoje sentia apenas o característico cheiro de urina amanhecida. Onde antes havia marinheiros, agora putas baratas e de má aparência conversam e lançam olhares, apinhadas nas esquinas. Mas o arredor não deixa dúvida de que lugar é aquele. As construções pitorescas, degradadas pelo tempo, os armazéns cheios de vazio – com seus vidros quebrados, sempre se mostrando prestes a desabar, agora abrigam homens esquecidos e todo tipo de imundice. Mas não, eles não negam para que foram construídos. Alguns ainda carregam nomes sobre as portas, outros números, a maioria já se perdeu.   Ao caminhar pelas ruas escuras, ele experimenta uma solidão única. Sente a paz cheia de perigo que apenas o deserto de uma rua assim pode provocar. Vez por outra, cruza com alguém, algum outro caminhante noturno. Nesses encontros, tudo pode depend...

Conto da Velha Floresta

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  Certa vez vi uma menina entrar na Velha Floresta. Primeiro fiquei confuso. Seus movimentos eram fluidos, seus cabelos se juntavam a noite. Era um vulto branco e sensual se deslocando com leveza entre carvalhos e olmos. Pus-me a segui-la sem pensar. Rápido, adentrei pelos arbustos, tomado de encantamento e desejo. Não pensei de fato. Apenas fui. Senti o negror cobrir meu corpo e, guiado apenas pelas bruxuleantes luzes da mata, continuei, tateando o desconhecido. Meu coração poderia ter saído pela boca ou parado de bater. Nem ao menos teria me importado. Apenas precisava estar ali. Podia sentir sua presença. Sua respiração quase sussurrante. Seu cheiro entre as folhagens... posso jurar que cheguei a sentir seu cheiro. Mas por mais desesperada que fosse minha busca, meus olhos não podiam ver. Por muito tempo – não sei quanto, não importa quanto – fui um fantasma cego naquele mundo estranho. Perdi tanta substância que me juntei com a sombra. Éramos um só. Meu corpo estava em todo l...