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do resto do mundo

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Dizem por aí que descobriu-se uma nova forma de vida. Muito ainda há de se debater quanto ao seu nicho ecológico, mas já definiu-se seu hábitat: espalhado por toda parte, vive onde ninguém mais quer estar. Seu espaço natural começa onde termina tudo que olhos saudáveis querem ver. Verdadeira maravilha da evolução, é incrivelmente adaptável. Reproduz-se com muita facilidade, acomodando-se na sujeira, servindo-se de excrementos e restos. Acredita-se que por isso esteve por tanto tempo esquecido: por instinto, o evitamos, já que tal modo de vida faz com que exale fortes odores – que parecem funcionar como defesa natural da espécie.   Alguns exemplares apreciam lugares escuros, longe dos olhos curiosos. Construções abandonadas, ruas desertas e infectas, lixões ou sob o pouso de viadutos: todos esses são pontos onde podem ser facilmente encontrados. Outros são mais exibicionistas e não se importam em mostrar a todos a miséria de sua existência. Esses são vistos com desconfiança e po...

Crônica do amor primeiro

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Foi o primeiro amor. Embora até hoje o significado dessa palavra me fuja à definição, é sempre nela quem penso quando falam em primeiro amor. Porque, convenhamos, o primeiro amor é diferente. Tem aquele ar pueril cheio de inocência. É tímido, desesperado, mais doce por ser ainda desprovido de toda e qualquer desilusão. O primeiro amor é especial. Mais do reino do sonho que do material. Quem dera todos os amores fossem primeiros e o adorável momento dos dez anos durasse para sempre.   Estava no auge do meu nono ano de vida – nove anos é uma idade especial porque em breve você fará dez, e dez, como todos os números redondos, tem um ar de importância. Fazia pouco que havia me mudado para a Vila de Baixo, uma das duas partes de uma vila maior que se bifurcava. Todos os dias, pela manhã, vestia meu uniforme da escola engomado com esmero e saia com minha mãe caminhando até o ponto de ônibus. Não sei há quantos dias, semanas ou meses já morava ali quando ocorreu aquele encontro. Conta...

O Peixe

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Tinha um peixe na prateleira ao lado da fila do caixa. Estava dentro de um saco, mas ainda era um peixe. E me olhava. Havia sido pescado e abandonado ali. Não pela mesma pessoa, obviamente. Mesmo assim me lançava aquele olhar esbugalhado como se eu tivesse culpa do seu destino de peixe pescado. Fiquei indignado. E enjoado também. Se não o tirassem dali, daqui a pouco começaria a feder. Uma fila lenta já era desgraça suficiente sem um peixe lamuriento se decompondo ao lado.   Passei pelo caixa, deixei um quinhão do meu esforço pelas minhas compras e sai, rápido, fugido. Mas não me adiantou. O peixe acusador não me largou. Sentia seu cheiro de cais do porto. Seus olhos, seus malditos olhos que nem na morte se fechavam, seguiam-me. Era um maldito, um maldito que não se colocava em seu lugar, lugar de peixe morto.   Cruzei com uma velha conhecida na rua. Olhei para ela pensando em cumprimentá-la e apavorei-me. Vi o peixe em seus olhos. Não a cumprimentei. Não tinha palavra...

Feroz

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Lembro que todas as cinzas manhãs fazia aquele caminho. Era uma casa construída sobre rocha, de modo que para chegar até ela, subia-se dois longos lances de escadas rentes ao paredão de pedra crua. Em cima havia um pequeno portão e uma amurada que separava o quintal de uns bons dez metros de queda. O parapeito era sustentado por uma sequência de pequenos pilares brancos, jônicos, que davam ar senhorial a fachada.   Foi lá que eu o vi.   Da primeira vez, achei que fosse saltar pelo vão da amurada tão disposto para fora estava, desafiando a altura. Não. Ficava ali, parado, olhando o movimento. Como um gárgula no topo de uma torre. Silencioso. Era completamente branco. Olhava tão fixamente para frente que poderia mesmo ser confundido com uma estátua se não estivesse em uma posição tão inusitada. Na manhã seguinte voltei a olhar e lá está ele. Na mesma posição. Parecia nunca ter saído dali. Passei a esperar por aquele trecho da viagem todas as manhãs, só para observar aque...

na Rua da Praia

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Já estava tarde, tinha decido do ônibus e caminhava pela Rua da Praia há algumas quadras quando me deparei com aquela senhora. Antes, o que me chamou atenção foi a lona azul, estendida sobre a calçada de pedras portuguesas, coberta de livros. O hábito me fez diminuir a velocidade das passadas: não resisto facilmente a livros, mas dessa vez, não achei que fosse interromper minha caminhada. Esperava livros espíritas, autoajuda, coisas que normalmente não chamam minha atenção. Mas Ulysses me fez parar. Joyce, em uma bela edição de capa dura vermelha, saltava aos olhos. E não estava só. Proust, Sartre, Barthes... volumes e mais volumes. Abaixei-me, esquadrinhei as edições tentado o máximo possível não bagunçar a ordem criteriosa na qual estavam dispostas. Quando finalmente encontrei algo de meu interesse levantei com a obra em mãos, a procura do responsável pelos exemplares. Então a vi. Sentada no degrau de uma loja já fechada, lançando-me um olhar atento, cheio de interesse. Não sou capaz...

O Porto

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Ao caminhar pelas ruas escuras, ele se pergunta há quanto tempo o mar se retirou dali. Provavelmente, algum dia foi possível sentir o cheiro da maresia daquela rua. Hoje sentia apenas o característico cheiro de urina amanhecida. Onde antes havia marinheiros, agora putas baratas e de má aparência conversam e lançam olhares, apinhadas nas esquinas. Mas o arredor não deixa dúvida de que lugar é aquele. As construções pitorescas, degradadas pelo tempo, os armazéns cheios de vazio – com seus vidros quebrados, sempre se mostrando prestes a desabar, agora abrigam homens esquecidos e todo tipo de imundice. Mas não, eles não negam para que foram construídos. Alguns ainda carregam nomes sobre as portas, outros números, a maioria já se perdeu.   Ao caminhar pelas ruas escuras, ele experimenta uma solidão única. Sente a paz cheia de perigo que apenas o deserto de uma rua assim pode provocar. Vez por outra, cruza com alguém, algum outro caminhante noturno. Nesses encontros, tudo pode depend...

um soneto

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  Hoje eu quero compor um soneto. Mas não quero quadras. Não quero tercetos. Quero apenas a poesia decomposta em prosa. Mas mesmo assim irei chamar de soneto. Porque o soneto é meu, de ninguém mais. É encontro as escuras, sem espaço à rasuras. É noite fresca, são beijos que se perdem no final. É o véu que cai. O meu véu que cai. E mostra. Despudoradamente me mostra.